Quem pinta o sete, deita o oito

Xiko França

Será possível imaginar em que pé anda a possibilidade de o ser humano compreender o infinito?

Se pensarmos na imensidão do espaço, a Terra torna-se tão insignificante que poderia ser resumida a algo muito menor que um grão de areia de uma praia imensa. Afinal de contas, existem mais galáxias no universo do que estrelas dentro da galáxia de Via Láctea. Além disso, quase toda estrela vem acompanhada de um sistema planetário, muitos deles semelhantes ao nosso sistema solar. Pois bem, não há como não reconhecer a pequenez do nosso planetinha tão judiado. No entanto, a coisa muda quando tomamos como referência o nosso próprio corpo, nossas medidas, nossa estatura. Aí sim a Terra se agiganta consideravelmente. Para uma formiga então, nem se fala! Com certeza, ela desconhece a curvatura do globo.

Mas e se fôssemos mais a fundo, na pequenez das coisas e na pequenez das partes das coisas, assim por diante, caminhando sempre em direção ao ponto do ponto? Ao nos depararmos com as micropartículas, como essas comparações ficam? Há uma quebra, uma inversão. A Terra volta a ficar minúscula. Dá-se uma cambalhota e o universo quântico nos joga novamente de cara aos mistérios do macrocosmo. Sobre esse ponto de contato é que Einstein se debruçou durante grande parte da sua vida, na tentativa de chegar a uma teoria total da física, a chamada teoria do campo unificado, que conciliasse a relatividade geral com o comportamento da matéria em escalas atômicas e subatômicas. O problema permaneceu insolúvel até surgir a Teoria das Cordas, ou a Teoria M, para propor algo próximo de uma “teoria de tudo”.

Mesmo assim, o que seria esse “tudo”? Ele está fora ou dentro do infinito? Segundo os matemáticos intuicionistas, sobretudo seu expoente, o holandês Luitzen Brouwer, nós seres humanos, por sermos seres finitos, somos incapazes de compreender o infinito. A própria lógica tradicional, uma vez feita de construções mentais, não poderia ser mais do que um conjunto de construções finitárias. Mas Kurt Godel, por sua vez, revolucionou a matemática dizendo que as verdades matemáticas podem existir independentemente da dedutibilidade. Ou seja, existe uma incompletude que desestabiliza qualquer asserção rasa de consistência matemática.

Teoria da incompletude, até que ponto isso também não nos lança a idéia de infinito, aquilo que existe e que buscamos encontrar sempre com a impressão de que algo nos escapará?

Pensar esse tipo de coisa é sempre e essencialmente um ato metalingüístico. Normalmente se diz que a pessoa que aponta para um ponto do céu, querendo apontar a direção do infinito, quando chega mentalmente mais longe, tende a retornar ao próprio ponto em que está, de mãos erguidas, como que mirando a si próprio sem saber. Algo parecido com a idéia do eterno retorno, misturado com o lema sofista de que “o homem é a medida das coisas”. Isso, é verdade, supostamente enclausura as possibilidades de compreensão do infinito para além do condicionamento humano. Mas talvez o x da questão seja que ao olharmos para frente e para o futuro, sempre vemos um espelho. Um espelho que se interpõem para tentar suprir confortavelmente nossas miopias.

Essa espécie de visão-espelho pode também não ser puramente artificial e mera derivação de nossas projeções limítrofes. Se pensamos num espaço infinito, o tempo também deve ser pensado da mesma forma, e assim talvez o infinito deva existir mesmo de tal modo que tudo nele seja sincrônico.

Por mais contraditório que pareça, um outro meio de tentar compreender o infinito seria olhar para trás, para o passado. Há tempos o grande desafio dos cosmólogos tem sido chegar a resultados precisos sobre o Big Bang, o começo de tudo que conhecemos, para poder daí sondar o futuro do Universo, o futuro de sua expansão.

Recentemente, os físicos do Centro Europeu de Física Nuclear (Cern) obtiveram sucesso na incrível experiência de reproduzir as condições físicas de um nanossegundo depois do Big Bang. A idéia foi fazer prótons colidirem a uma velocidade próxima da luz, a tal ponto que a energia gerada desta colisão (cerca de 7 trilhões de elétrons-volt) fosse transformada em matéria. Justamente de acordo a clássica equação E=mc². E assim foi. Agora as pesquisas precisam de tempo para decifrar todas as implicações de seu experimento.

Ainda assim, sempre vem a pergunta: “e antes do Big Bang?”. Neste quesito, a ciência tende a se eximir da responsabilidade de oferecer respostas. É claro, pois antes disso, há incontáveis problemas a se resolverem. Mas é inegável que, cada vez mais, alguns cérebros muito aplicados estão caminhando para uma visão mais ampla e complexa do espaço, da existência e, porque não, do infinito.

O que existia antes do Big Bang é algo que não pode ser respondido, mas o problema é tão instigante que fez nascerem hipóteses interessantes. Segundo o cosmologo russo da Universidade de Stanford Andrei Linde, por exemplo, o Universo é apenas uma ramificação de um “Multiverso” provavelmente infinito. Richard Wolfson, em seu livro sobre Einstein, explica a teoria de Linde: “aquilo que consideramos ser a origem e evolução do Universo a partir do Big Bang é apenas o brotamento e subseqüente expansão de uma nova ramificação de um cosmo preexistente. Essa ramificação é o nosso Universo. Outras ramificações são universos diferentes, cada um dos quais teve seu próprio Big Bang e seu próprio cenário de evolução”.

Uma teoria como essa, apesar de ainda estar muito longe de qualquer comprovação empírica, é impressionante. É o infinito que nos fascina.

A Ciência mesma é infinita, essa é a prova de que os cientistas estão em constante busca pelo infinito. Eis o que disse certa vez o nosso mais ilustre físico, Mário Schenberg: “A História da Ciência é mais fascinante que um romance policial. O mistério do romance policial sempre se esclarece no fim, mas o da Ciência nunca se esclarece”.

Georg Cantor foi o primeiro a considerar conjuntos infinitos na Matemática

seja estúpido

Bruno Rico

Coisas acontecem. Na semana da final do BBB, chegou a São Paulo a mostra do Andy Warhol, o self-made-celebrity. Um maestro da linguagem, discípulo declarado de John Cage e Duchamp. Um quase-travesti, baladeiro, viciado em glamour e anfetaminas. Focado no próprio rabo fincou uma cunha na estrutura arte-linguagem dos tempos-futuros. Penetrou uma fina ironia no consumo de massas. E, desde então, as mercadorias passaram a estampar um leve sorrisinho à Monalisa.

Mas, filosofia de c.. é rola, e Warhol está morto. Sua ironia virou pó. O consumismo em massa, segmentado, especializado, dos crediários, das prestações, das meninas de saias com pom-pons na mão vendendo automóveis novos, semi-novos e usados é o que pega. Para quem quer Andy Warhol, Hélio Oiticica, Flávio de Carvalho, dá-lhe BBB. E, como dizia aquela tia da escola, “te vira, oh meu”.

Vejamos. A final do reality rendeu à Globo 150 milhões de votos, que pagou 1,5 milhão a um novo-herói-artista-celebridade-cheio-de-músculos-mas-com-algum-sentimento. Mesmo sem sal algum, o bolanders é aceito pela massa como algo a ser admirado. O melodrama-voyeur dá sofisticação à moderna mercadoria. Todos olham, olham, insistem, e não entendem como aquela figura imbecil atrai tanto. Dourado, o vencedor, é, pelo avesso, um retrato da época.

Quando a arte de Warhol deslanchou, na década de 60, as estruturas econômicas de hoje estavam se reordenando. A produção e o consumo em massa já tinham seu modelo – fordista – mas uma nova fase se preparava: a internacionalização total do capital financeiro. Uma empresa como a Petrobras não tinha como captar milhões de dólares apenas com o anúncio da descoberta de um novo poço de petróleo. Hoje, tem. O processo deu velocidade geométrica à produção de capital. Houve uma quase fusão do capital industrial com o capital financeiro. Passou-se a, aparentemente, lucrar sem sair da esfera financeira, especulando sobre o crédito, sobre a mais-valia futura. Tudo, sem sair de casa. Invés de D – M – D’ (dinheiro-investimento, mercadoria-produção, +dinheiro), foi-se para D – D’ (dinheiro, +dinheiro). O chamado capital virtual é, ao mesmo tempo, mera aparência e fenômeno concreto. Contradição-síntese da época, que também se expressa nas artes.

Warhol antecipou a coisa. Era um fordista olhando para o “neo-fordismo”. Latas Campbell x Pay-per-view BBB 24h Ao Vivo. E nós, “neo-fordistas”, olhamos para Warhol para entender onde foi parar o “valor-de-uso” das mercadorias que são puro “valor”. Buscamos lastro de realidade no mundo dos fetiches.

Essa semana, a Diesel – aquela grife de vanguarda adolescente – lançou a campanha

SEJA ESTÚPIDO!

para uma vida de sucesso

defendendo, em tom-fetiche, meio pop meio punk, que inteligente mesmo é ser burro. Uma mistura de revolta e consumismo. Para eles, um texto como esse é “loser” e o legal é ficar com cara de ressaca-sexy em uma calça jeans previamente rasgada por operários que ganham um salário mínimo. É a vanguarda do Big Brother. Dourado não entenderia.

A suposta ironia que há nas campanhas pretensas a vanguarda do mundo fashion parece-se com a ironia que há em Warhol pois exacerba a afirmação do mundo da mercadoria, e a eleva a um patamar agressivo, muitas vezes mórbido até. Mas, se lá atrás, Warhol anunciou esta merda aqui, este merda aqui já está dando voltas em torno do próprio rabo e cheiro está começando a ficar insuportável. O extremo da afirmação da vida-fetiche aponta para a decadência: modelos de 15 anos com cara de overdose de anfetmina jogadas em um sofá. Sexy-mercadoria é a idéia.

- Seja estúpido!

Caso Isabella, sociedade em delírio

Bruno Rico

O assunto da semana é: caso Isabella

“Deus fez o mar, as águas, as crianças, o amor.
O homem criou a favela, o crack, a trairagem, as arma, as bebida, as puta.
Eu ? Eu tenho uma bíblia veia, uma pistola automática e um sentimento de revolta.
Eu tô tentando sobreviver no inferno”
“Genesis”, do álbum “Sobrevivendo no inferno”, dos Racionais Mc’s

Neste sábado (27/03), à 1h da madrugada, ouvia-se no rádio uma repórter da CBN gritando no microfone para ser ouvida em meio à bagunça em frente ao Fórum de Santana, na zona norte de São Paulo, para confirmar o que o Brasil inteiro aguardou por dois anos: o casal Nardoni fora condenado. 31 anos (ele) e 26 anos (ela). O caso Isabella finalmente ganha um fim.

Horas antes, na frente do fórum, um pastor gritava defendendo o perdão do casal com uma bíblia na mão. Foi agredido. A mídia cobrou e o governo disse que ia aumentar o policiamento na área. Cerca de 50 policiais na rua. No mesmo dia, outras duas pessoas foram agredidas. O tenente coronel Ricardo de Souza orientou que o estudante Igor Silva, que defendeu o casal, fosse embora, pois “não tem condições de garantir a segurança dele”. Uma senhora, aparentando 50 anos, deu um soco no rosto de um homem que disse que não havia provas conra o casal. Lá dentro, o promotor fazia sua denúncia gesticulando as mãos embevecido pelo delírio, numa típica cena de filme de tribunal americano. “Depois de jogar a criança pela janela, a terceira pessoa ainda colocou a frauda para lavar”, ironizou. A defesa se irritou e reafirmou que não havia provas. Em seu pronunciamento, o pai Alexandre Nardoni chorava “lágrimas falsas” como disse alguém por ali. A mãe real não quis comparecer. A avó materna vestia uma camiseta com a foto sorridente de Isabella. Os relatos e fotos multiplicaram-se nas capas dos jornais, revistas e portais. “Siga aqui em tempo real o caso Isabella”. E as pesssoas seguiram. E quando, finalmente, a condenação foi confirmada, o povo comemorou como festa, aplaudiu o promotor, correu atrás do carro dos condenados, tocaram no stereo o “Tema da Vitória”, conhecida como a música das vitórias de Ayrton Senna, e, dois anos passados, o Brasil acalmou os ânimos certo de que desta vez, ao menos, fez-se justiça. Que Isabella durma em paz.

Agência Estado
Pastor agredido em  frente ao Fórum de Santana
Pastor em frente ao Fórum de Santana

O fenômeno midiático “caso Isabella”, por mais delirante que pareça, é uma constante nos nossos dias*. Suzane Von Richthofen, Eloá, Daniela Perez e todos os crimes móbidos noticiados diariamente nos cadernos “cidades” dos jornais atraem os olhos como mulher pelada. Hoje, dá para se ter a exata noção de quanta audiênca cada noticia gera em um portal de internet, através de seus cliques por minuto. Uma notícia sobre alagamentos na zona leste de São Paulo dá cerca de 50 cliques. Outra com um furo de reportagem sobre o mensalão do DEM, outros 50. Uma chamada para dicas de sexo anal dá 1000 cliques. O caso Isabella, sem fatos novos, apenas com um “Siga aqui o caso”, dá os mesmos 1000 cliques por minuto. Cada vírgula nova sobre o caso foi devorada como carniça pra cachorros.

Tudo soa como cinema, como mimesis da vida. Na verdade, não exatamente da vida. Mas de uma versão do que PODERIA ser a vida. Sua versão extrema. A condição violenta da vida nas cidades + a delirante produção de notícia colocam a sociedade em estado de catarse. O assassinato de Isabella é um fato privado. Mas o CASO ISABELLA é um fato social. Trata-se de um processo de alienação do fato do processo. Um fetiche produzido em conjunto pela mídia e pela sociedade. Supereróis invertidos degustados por voyeurs. Um delírio conjunto. Expressão da condição estrutural de catarse dos centros urbanos, das periferias, das prisões, da violência, do caos.

A sociedade projetar seus desejos sobre algo público é, no mínimo, comum, senão urgente. O inverso disso é o europeu blasé com cara de casado pegando o metro segunda-feira de manhâ. Deus nos livre. Heróis são heróis. Mortais são mortais. “E ninguém quer ser coadjuvante de ninguém,” parafraseando de novo os Racionais. Sem as paixões populares, a história não anda. Mas aqui não trata-se de heróis. O foco social têm se desviado para seus inversos vazios. Se as edições do BBB têm quase 100 milhões de votos para decidir qual bombado playboy vai continuar na casa, estamos mal. Se o Luciano Huck tem audiência recorde quando tortura um desempregado do sertão para pargar-lhe uma reforma na sua casa em rede nacional num sábado a tarde, estamos mal. Se uma enchente dura dois meses no jardim Pantanal na zona Leste da capital de São Paulo e nada ou quase nada se fala, algo anda por vias tortas. O mito dos heróis não foi superado, mas esvaziado.

AE
Homem protesta na porta do Fórum

O caso Isabella não movimentou tantos corações pela sua bizarrice, mas pela sua proximidade com a vida. Quantas tragédias privadas o caos urbano não estaria alimentando diariamente? Quantos são os sobreviventes? Em frente ao Fórum de Santana, dezenas de pessoas acamparam durante uma semana para tentar ocupar uma das 57 vagas destinadas a interessados em acompanhar o julgamento. “A cabelereira Rosana Aparecida Rodrigues, de 31 anos, fechou o salão e desmarcou as clientes desta quarta-feira. “Nós, que somos mães, queremos apoiar a Ana Carolina de Oliveira”. Da cidade de Tramandaí, no interior do Rio Grande do Sul, veio o engenheiro Carlos Torres, de 57 anos. Entre passagens de avião e hospedagem em hotel, calcula ter gasto cerca de R$ 1 mil. “Desde o primeiro dia acompanho o caso e participo de discussões e comunidades no Orkut. Acho que o fato de ter uma filha pequena chamada Isabella contribuiu para me comover mais”, completou” (reportagem de Lecticia Maggi). Se as câmeras se aprofundassem nas estórias das pessoas que vieram do RS, de MG, da BA, do interior de SP etc para o julgamento, se voltassem a atenção para as pessoas que passaram cinco dias dormindo no chão, que brigaram com o pastor, com o estudante, provavelmente descobririam estórias de vida que sugerem finais trágicos, mas que ou foram superadas pela nobreza franciscano-religiosa de suas almas ou que realmente aconteceram, mas que não chegaram aos cadernos “cidades” da grande mídia. Todos eles foram profundamente tocados não apenas pelo mórbido crime, mas pelo fetiche desencadeado. Suas vidas foram projetadas para a cena do crime: um quarto com manchas de sangue reveladas postumamente pela perícia.

O fetiche delirante é devorado pelo povo e viceversa.

-       Perdão, pastor. Perdão.

* Em 2002, a jovem Suzane Von Richthofen de 19 anos tramou com o namorado, Daniel Cravinhos, o assassinato dos pais, o engenheiro Manfred e a psiquiatra Marísia. O casal foi encontrado morto em seu quarto com golpes de barras de ferro. Suzane foi condenada à pena de 39 anos e 6 meses de reclusão. Hoje, com 26 anos, Suzane frequenta cultos evangélicos na Penitenciária de Tremembé, São Paulo, onde está presa. Em 13 de outubro de 2008, o ex-namorado Lindemberg invadiu o apartamento de Eloá Pimentel. Ela foi feita refém com a amiga Nayara, de 15 anos, e dois amigos. A Polícia Militar invadiu o local, mas Nayara foi baleada no rosto e Eloá, na cabeça e na perna. Lindemberg foi preso. A perícia constatou que saíram do revólver que ele usava os tiros que acertaram as reféns. Pelo menos 12 mil pessoas acompanharam o enterro da jovem em Santo André, na Grande São Paulo. Em 29 de dezembro de 1992, a atriz e bailarina Daniela Perez foi assassinada aos 22 anos com 18 golpes de tesoura, no Rio de Janeiro pelo também ator Guilherme de Pádua, com a ajuda da mulher dele, Paula Thomaz. Na época, Daniella vivia a personagem Yasmin na novela “De Corpo e Alma”, escrita por sua mãe, Glória Perez. Guilherme vivia Bira, apaixonado por Yasmin. Antes de confessar o crime, Guilherme procurou, ainda no funeral, Glória Perez e o ator Raul Gazolla, marido de Daniella, para prestar solidariedade.
PS: Informações sobre o caso Isabella retiradas de reportagens de Lecticia Maggi, Matheus Pichonelli e Ricardo Galhardo, para o iG.

ABC do HCG – Irmãos Freak

Xiko França

Para começar, aqui vai um trecho do ABC da Literatura, de Ezra Pound. Primeira parte, capitulo 8:

“A linguagem é um meio de comunicação. Para carregar a linguagem de significado até o máximo grau possível, dispomos de três meios principais:

  1. Projetar o objeto (fixo ou em movimento) na imaginação visual.
  2. Produzir correlações emocionais por intermédio do som e do ritmo da fala.
  3. Produzir ambos os efeitos estimulando as associações (intelectuais ou emocionais) que permaneceram na consciência do receptor em relação às palavras ou grupos de palavras efetivamente empregados.”

Esses três pontos são, em outras palavras, respectivamente: fanopeia, melopeia e logopeia. Essas qualidades, segundo Pound, definem as possíveis modalidades de poesia. A primeira: “aquela em que as palavras são impregnadas de uma propriedade musical (som e ritmo) que orienta o seu significado”. A segunda: “um lance de imagens sobre a imaginação visual”. A terceira: “‘a dança do intelecto entre as palavras’, que trabalha no domínio específico das manifestações verbais e não se pode conter em música ou em plástica”.

Mas isso não deve ficar restrito apenas à literatura e à poesia. Certamente, se expande a outras formas de manifestação, outras linguagens, outras vivências. Aí entra em cena o maior trio, o verdadeiro trio parada dura do cinema americano: uma trinca de origem circense e família numerosíssima: Adolph (ou Arthur, ou Adhie para os íntimos), um talentoso harpista e exímio mímico; Leonard, amante inveterado das cartas e jogatinas em geral; e Julius, dos três o mais novo, mas também o mais articulado, mais negociador e precoce nos palcos do teatro de variedades.

Estamos falando dos Irmãos Marx. Em 1920, eles foram os reis do teatro de revista, em seguida, fizeram espetáculos para a Broadway e se imortalizaram com uma intensa produção de filmes, que vão, desde 1929 até 1947 (entre eles, “O Diabo a Quatro”, “Uma Noite na Ópera” e “Um Dia nas Corridas”). Glauber Rocha, no ensaio “O Galante Vagabundo”, sobre Frank Capra, chama os irmãos de precursores do “mau gosto cômico”, do “sub-humor” que, segundo ele, ecoaria em Jerry Lewis e Bob Hope anos mais tarde. Mas quem se importa? Antonin Artaud considerava-os uma das mais expressivas lufadas anarquistas do cinema.

Que o humor e a crítica são antigos namorados, isso muita gente sabe e admite. Mas então por que “mau-gosto cômico”? Talvez o problema esteja no fato de sua crítica mordaz cometer a deselegância de abocanhar com dentaduras banguelas. O fato é que eles não eram sérios, construíram tudo impulsionados pelo rigor do riso, e fizeram disso um grande negócio. Com todo um aporte e disciplina vindos do tempo do teatro, os Marx transpassaram um humor sempre surpreendente e cheio de “gags” politicamente incorretas. Não tinham medo de aprontar. Harpo, Chico e Groucho eram sempre bons e maus, malandros e santos. Diagonais.

Tudo bem, perguntam, mas o que isso tudo tem a ver com Ezra Pound? Tem muito, muito a ver. Os Irmãos Marx incorporam e vivificam nas telas os mesmos elementos de potência da linguagem assinalados pelo autor dos Cantos. Harpo não é pura fanopeia? Faz papel de mudo em pleno cinema recém falado, e depois dos monstruosos Charles Chaplin e Buster Keaton (que, inclusive, colaborou na criação de algumas de suas cenas em “Noite na Ópera”); age e interage com falas mímicas, com imagem, com o corpo e com os mil apetrechos de seu sobretudo. Em Horse Feathers, de 1932, ele (no papel de “dog catcher number 1”) está andando na rua quando um desempregado o aborda pedindo dinheiro para um café; daí, ele não perdoa e na hora tira do bolso uma xícara quentinha. E como não lembrar os seus furtos, sua facilidade mágica de surrupiar as coisas e seu paladar por aparelhos de telefone e tinta de caneta.

Uma vez, na vida real, quando os três voltavam para casa depois de terem sido humilhados por um empresário, Harpo praguejou, gritou que o teatro do magnata queimasse por inteiro. No dia seguinte, descobriram: o lugar havia mesmo incendiado. Daí em diante, ficou decidido que suas palavras eram muito perigosas e ele deveria não falar mais. A única vez que Harpo falou ao público, não foi exatamente uma fala. Na verdade, está tudo escrito num livro, o “Harpo Speaks”.

Mas, agora, passando ao Chico. Ele não é pura melopeia? Seu inglês macarrônico de erres rasgados, acompanhados por seu nome latino, seus erros de concordância, sua malandragem, não lembram aqueles típicos moradores da Mooca, só que em terra ianque? No fim das contas, sua fala é música e vira gancho pra muitas piadas, que giram em torno de ambigüidades e parônimos. Sua atuação fica bem próxima das “correlações emocionais por intermédio do som e do ritmo da fala”, o ponto 2 de Pound.

E Groucho, o homem esperto dos negócios, aquele que carrega o dinheiro da família numa “grouchbag”? Ele é a logopeia de bigodes postiços em pessoa! Suas palavras dançam em associações livríssimas, fazem as charadas e ofensas virarem cambalhota e mudarem de direção e vítima. Talvez não haja melhor jeito de compreender a logopeia, “a dança do intelecto entre as palavras”, do que através do caminhão de galhofas gorucho marxistas.

É um verdadeiro arsenal piadístico, construído em cima de um impressionante traquejo lingüístico. Por exemplo, os clássicos: “me inclua fora dessa”, ou o ainda mais famoso “não entro para nenhum clube que me aceite como membro”.

O que podemos concluir dessas ligações todas é que, no mínimo, Harpo, Chico e Groucho estão mais próximos da poesia do que se imagina. Praticamente todo cinema de humor, se não todo o cinema em geral, deve muito a eles. E, sem dúvida, os quadrinhos, não podemos esquecer. Gilbert Shelton criou os Freak Brothers, a trinca de felpudos maconheiros – vejam só – depois de assistir a uma dupla sessão de cinema: Os Três Patetas e, é claro, Os Irmãos Marx.

Havia também Gummo e Zeppo, mas três não é um número bom?

caminho da mata

gre gananian

a caminho da mata ta ta

show do ritual, o cinema é a cidade, o mapa da mata,

salas:  pessoas sentadas sem ruído sem som sem movimento – o tempo do passivo. Essas pessoas na sala de cinema

aonde esta sade , aonde está masoch aonde está o baião e o rock cadê Bach cadê barroco?

o cinema retângulo é uma das formas. O cinema retângulo é uma das formas, o cinema retângulo é uma das formas. O cinema retângulo é uma das formas,   o cinama retangulo é   uma das formas, o   cinema retângulo é   uma  das formas.

formas são infinitas. movimentos assindéticos.

projéctils

quem assiste cria existe resiste?

quem assiste cria?

Homem quer dançar, rebolar, gritar, a sala são Paulo não é a cidade de são Paulo

Itália criou o cinecitta, nós da freedonia inventamos o neon realismo do cine  mapa mata . A macumba dos homens, macumba da terra.

Aonde estão os homens!

Onde estão os homens?

portal aberto

HD externo do agora,

Àgora aos avessos

a tela filma publico monta a câmera não é somente olho ela é  tela,

As telas

É isso mesmo amiguinhos:, telas muitas telas e melhor ainda elas estarão juntas, AGORA QUE SÃO ELAS.

– o cubismo trouxe o simultâneo, aprenderemos com ele

Os sons são vários, os sons são espaços os sons são caixas:  de madeira, de ferro, de tórax e da silva

Acordem todos escutem este acorde maiormenorsustenidobemolruídodiminuto

quantos tempos cabem em um mundo de minuto,

qual é o caminho da mata? o cine mata?

a estrutura do cinema está oculta “questo parole de colore oscuro”

a musica existe no silencio.

a imagem existe no escuro?

o neon resiste

o projetor projeta imagem e luz

Jornal d´manha: 1957

“Exibição de filme de Elvis Presley enlouquece o público no cinema, fazendo com que os jovens presentes transformassem a própria sala de cinema num cabaré dançante.”

Quem quiser ficar sentado fica, quem dançar dança, johnny o deus pagão ira pagar esta festa, será servido pão e pinga a todos, 24h de montanha russa.

keep walkin johnny walking

O cinema do futuro começou na idade da terra. Acreditem pessoas depois ele foi para a disney diluiu se na cidade de hopi hari, enquanto que as terras d´ playcenter resistiam em suas noites de terror, todo cinema pode ser um parque de diversões, play time do tatit  e arrigo barnabé são diversões eletrônicas, o ritual está apenas começando…

será?

SALSA disse que…

O cinema brasileiro é, sempre foi, e sempre será a maior das vergonhas nacionais. Enquanto banqueiros, publicitários bem sucedidos, diretores de TV, fotógrafos burros e produtores sem talento se apaixonam pela sétima arte e tentam levantar a coisa no país da copa e da olimpíada, cientistas loucos, vedetes, vampiros, múmias, detetives, reciclam todo o material humano e físico disponível e, com muito palavrão e muita, mas muita sacanagem, mantém a tradição de produzir o…

PIOR CINEMA DO MUNDO

…coisa que pode trazer uma imprevisível situação de vitalidade para os que não marcam mais touca nem com mocinho, nem com bandido.

Diante da falência do esquema fóssil de cinema como a grande arte da reprodução de imagens técnicas, e frente ao trato diário dos homens com a TV, a internet, e a pancada de meios eletrônicos, a experimentação de possibilidades diversas dentro do signo expandido de imagem e som em movimento, passa a ser o caminho mais interessante para driblar a crise cinematográfica e continuar a beliscar a bunda do ser humano.

O cinema é um sistema de signos situado na esquina entre o real e o imaginário, simultaneamente negando e afirmando aquilo que é verdadeiro. Foi o haroldodecampos que sabiamente veio com a história de que não existe essa onda de pós-modernidade, e que o que desmoronou mesmo foi a idéia de utopia, de futuro redentor, de “cheirinho de novos tempos no ar”, e que a modernidade é um lance permanente, perene, guiado por uma visão sincrônica do tempo, e não, nem nunca, a testa de ferro de um sistema preexistente. O que pode, e deve rolar, é o enfrentamento contra o antigo sistema cada vez que se assume a posição de baralhar-se experimentalmente com esse mesmo sistema (cinema). Você é experimentado? Quem é, sabe que a posição da transa entre espectador e imagens em movimento, receptor e sistema de signos, foi deslocada – e que por entre essa brecha o veneno pode começar a escorrer.

É por isso que estar por fora (das normas profissionais, das instituições, das produtoras, do “ainda faço um longa antes dos quarenta”) e por dentro (dos signos do cinema, da TV, das HQ’s, do sexo, e de tudo o mais que faça tirar as velhinhas e as crianças da sala) se revela a posição mais adequada para aqueles que se incomodam com o fato de o universo estar em expansão e o cérebro em implosão. Se o Brasil novo rico do “vou lavar meu carro no domingo”, do “não fume ao meu lado”, e do “que tal tentarmos uma casa de swing, meu bem ?”, se gaba de entrar no século XXI como a sétima economia do mundo, a bola da vez do mundo capitalista, a situação subdesenvolvida de seu cinema retardatário vivifica o momento onde todos os celulares possuem câmeras de filmar, e temos mais câmeras de segurança do que gente para ser filmada. A situação torna uma operação de mudança na maneira de pensar e fazer cinema essencial, ao mesmo tempo que abre espaço para a promiscuidade com meios “extracinematográficos”.  Temos que levar vantagem  no fato de estarmos no país onde o filho do Mick Jagger é neto do Jece Valadão.

A existência de equipamentos de realização razoáveis a preços idem, pode se revelar propícia para a incorporação de elementos que, com o máximo de imaginação, deturpem o traço retilíneo de formação de um cânone cinematográfico. A cinematografia mau caráter do ruído, que se entende com o cinema prestigiado e glorioso somente por trás, operando nas distorções, nas monstruosidades, nas infrações, no desacato. E sem essa de descobrir o Brasil por dentro, o traço nacional patriocêntrico. O cinema brasileiro é subdesenvolvido, como o cinema alemão é subdesenvolvido, como o cinema americano é subdesenvolvido. O ser humano é subdesenvolvido. Até que em algum lugar do planeta terra ainda se fabrique armas e se morra de fome.

Nas próximas semanas o espaço estará aberto para josémojicamarins, ivancardoso, rogériosganzerla, glauberrocha, ozualdocandeias, juliobressane, e outros que contribuíram para essa situação de miséria e caos. Pois já disse hélioiticica, “tudo o que disseram que não pode ser feito, pode…”.

PS: Andy Warhol e Paul por aqui. Glaucomdeus.

o jogo de lego do lulismo

Bruno Rico

O Assunto da semana é: Lula

Nesta semana, saiu a pesquisa CNT sensus/Ibope, que apontou a redução da distância entre Serra e Dilma Roussef nas intenções de voto nas eleicões presidenciais de 2010. Numa constante, Dilma vem subindo nas pesquisas e Serra, se não caindo, estável. Dilma, até a queda do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, não era absolutamente conhecida. Inclusive, mesmo acompanhando Lula em quase todas as atividades públicas há pelo menos um ano, ainda é desconhecida para alguns brasileiros. Sua vida pública, apesar da militância na ditadura militar, era menos conhecida do que, por exemplo, a do ex-ministro das Comunicações, Gushiken. Com quase todas as cartadas petistas fora do baralho após os casos de desvios de verbas públicas para próprio benefício e pagamento de apoio político da base governista no esquema do Mensalão, Dilma Roussef, apesar de nenhum carisma popular e de só ter se filiado ao PT em 2000, foi escolhida por Lula como a figura responsável por dar sequência ao seu legado. Eleita por ele, ela tem hoje grandes chances de ser eleita pelo povo. Mesmo que isso não ocorra – embora a tendência virtual pareça ser a inversa -, a influência dos desejos de Lula sobre os destinos do País revela-se como um FATO POLÍTICO sem precedentes na história do País.

Um estudo publicado no final de 2009 (Raízes sociais e ideológicas do Lulismo” ) pelo ex-porta voz de Lula André Singer,  filho do sociólogo Paul Singer, baseado em análises de pesquisas eleitorais, buscou entender as raízes do termo Lulismo. Os dados empíricos levantados mostram que os votos de Lula NUNCA vieram da população mais pobre do País. Pelo contrário. Contra Collor, FHC e Serra, o candidato ‘de esquerda’ sempre perdeu os votos dos mais pobres para seus candidatos ou abertamente de direita (Collor) ou democrático-liberais (FHC e Serra). Mesmo em 2002, quando foi eleito, a maior parte dos votos dos mais pobres voltou-se a Serra.  A chave, no entanto, se inverteu em 2006, quando Lula perdeu votos dois mais ricos e ganhou as eleições contra o tucano Alckmin com justamente os votos dos mais pobres.

E explicação dada é que Lula, uma vez eleito, em 2002, voltou a atenção do Estado aos mais pobres sem deixar desandar a estabilidade econônico-social. Lula garantiu estabilidade e, com um mínimo de distribuição de renda, conquistou um montante gigantesco de pobres do País. Com isso (e com o Mensalão), teria perddido parte de uma das suas bases de apoio político clássicas, os ‘bem-instruídos’ – intelectuais, estudantes e jornalistas –, e conquistado uma maior e mais revante eleitoralmente: os pobres.

Com a desmoralização de quase todos os quadros do PT e o carisma de uma história heróico-vitoriosa, os ganhos políticos deste processo concentraram-se sobre uma só figura. E Lula, quase instintivamente, soube manter-se nos cantos onde sua simples presença lhe rendeu a consolidação deste STATUS POLÍTICO.

Sem perder de vista esses ajustes políticos, superestruturais, Lula disponibilizou o Estado à livre entrada-e-saída dos interesses burgueses. Fora preocupação com a inflação, todo o resto foi feito pra multiplicar livremente os investimentos capitalistas no País e, com eles, deixar a classe trabalhadora colher pequenas fatias dos altíssimos ganhos dos grandes capitalistas. Os capitalistas lucraram como nunca, os trabalhadores colheram seus ponto zero alguma coisa porcento e o resto foi ‘democraticamente’ distribuído aos miseráveis.

Comprando a base governista – cujo eterno protagnista é o PMDB -, garantindo a estabilidade dos preços, disponibilizando o País para a livre-entrada extração de lucro,  e  redistribuindo a custo de banana as migalhas dos ganhos econômicos para a classe trabalhadora e pobre, Lula descolou-se dos enroscos internos da vidinha aristocrático-política e pode voar baixo escolhendo seus amigos de viagem a dedo.

Em 1848, após o maior levante de massas da História até então, um parlamento burguês (em moldes ainda mais aristocratas do que hoje) se formou na França. Pressionado pelo povão por diversas reivindicações sociais, entre elas redistribuicão de terras para pequenos camponeses e o sufrágio Universal, o Parlamento se enforcou na inconpetência de governo e em disputas internas e foi-se definhando, aumentando o risco de um novo levante popular ocorrer. À beira do calpso, um homem que se mantinha à margem de tais disputas sem, no entanto, ausentar-se dos grupelhos predominantes da politicagem, surgiu, feito mágica, trazendo fantasmas do passado, para assentar as coisas. Este homem foi Napoleão III, que, entranhado na alta burguesia, voltou sua atenção ao chamado lumpem-proletariado, a classe que mais temia uma nova desordem (pois é a que é a primeira a ser atingida por inflações e repressões), e reinstaurou o Império na França, em um processo gradual de contra-revolução apoiado nos setores mais miseráveis do país, descrito minuciosamente por Marx, em “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”.

Estranhamente, André Singer, o homem de confiança de Lula entre 2003 e 2007, foi buscar neste texto o termo correto para definir o fenômeno Lula. E, não à toa, definiu o Lulismo como um bonapartismo sem os traços militares.

Disse à uma revista: “O lulismo é a execução de um projeto político de redistribuição de renda focado no setor mais pobre da população, mas sem ameaça de ruptura da ordem, sem confrontação política, sem radicalização, sem os componentes clássicos das propostas de mudanças mais à esquerda. Foi o que o governo Lula fez. A manutenção de uma conduta de política macroeconômica mais conservadora, com juros elevados, austeridade fiscal e câmbio flutuante, foi o preço a pagar pela manutenção da ordem. Diante desse projeto, a camada de baixa renda, cerca de metade do eleitorado, começou a se realinhar em direção ao presidente.”

A ministra Dilma Rousseff tenta fazer uma omelete no programa
de Luciana Gimenez – Veja.com

Agora, Lula tenta transferir seus votos para Dilma. Mas ele não necessariamente tem que transferir todo seu status político de um corpo para outro. Tem, apenas,  que, dentro do pragmatismo reinante, transferir os votos. O que, dentro das mágicas da hábil e porca publicidade eleitoral é bem possível. Mas, junto com Dilma e seus votos, vem um grupelho gigantesco de interesses de políticos e empresários semelhantes à aristocracia do século XIX. E são estes, não a figura dificilmente bonapartista que Dilma pode querer construir que podem dar o tom do governo. Até por não ter tamanho status, Dilma teria que fazer maiores concessões para governar. Uma máfiazinha auto-refenciada, sem compromisso com povo pode adentrar ainda mais seus braços sobre o Estado. O estilo petista de governo prolifera-se como um câncer. Claro, se o PSDB ganhar o pleito, os mesmos pilantras vão dar as caras. O liberalismo clássico e burro dos tucanos pode ser ainda pior. Depende do ângulo. Mas, diferentemente de 2002, quando havia uma expectativa sobre os rumos do País, com a ‘eleição de um operário’, mesmo que ingênua, agora, não há nem isso. Nem um frio na barriga os políticos nos permitem. O jogo está com as cartas todas marcadas. O PMDB distribui o jogo. O povo escolhe quem pega que monte. De um lado PSDB. De outro, PT.

O pior é que jogam com se não soubéssemos que as cartas REALMENTE estão marcadas. E a ironia passa a ser um estado permanente das coisas.

Os enroscos éticos de Cuba

Bruno Rico

O assunto da semana é: cuba.

Na semana passada (21/02 a 27/02) Lula foi a Cuba. No mesmo dia que ia chegar, morreu um dissidente político, preso desde 2003, após fazer uma greve de fome por 85 dias. Lula deu azar. Encurralado entre a imagem de representante dos ideais democráticos, amigo político de Fidel e de Raúl e fiel à diplomacia, não comentou nem criticou a postura do governo. O fato gerou pequena estupefação de políticos, críticos e jornalistas. Os direitos humanos foram desrespeitados, disseram eles!

Em Cuba, Lula foi fazer duas coisas: Inaugurar uma obra no Porto de Cuba e fechar contratos comerciais bilaterais. Entre eles, um negócio de R$ 18 milhões da Souza Cruz, com contrato de 15 anos, e aprovar uma linha de financiamento do BNDES para exportações brasileiras a Cuba de US$ 150 milhões.

Apesar do consolidado aval mundial como representante de ideiais democráticos, mas enroscado com lobbys debaixo do braço, Lula calou-se.

A morte de Orlando Zapata Tamayo representa a ponta do iceberg histórico-político cubano. Em 1958, Fidel, Chê e mais uns 13 conseguiram sobreviver aos bombardeios do governo na Sierra Maestra, reunir pequenos camponeses, montar acamamentos guerrilheros, roubar armas do exército e, finalmente, derrubar a ditadura americana no dia 1 de janeiro de 1959, fazendo a história daquele povo avançar e superar contradições históricas. Nos anos seguintes, o governo expropriou as grandes proprieddes, distribui riqueza e meios de produção entre trabalhadores urbanos e rurais, alfabetizou a população, desenvolveu a pesquisa e o esporte e tirou a ilha da condição de cassino americano. De outro lado, desde então, 50 anos depois, o mesmo homem, inebriado pelo seu feito, construiu tal fortaleza de poder em torno de si que a história deste mesmo povo ficou ancorada à sua própria personalidade. Fidel Castro, um homem de vida privada desconhecida, que dorme 3 horas por noite, perpetuou-se meio século como o ditador bolivariano.

Nada disso, no entanto, preocupa a mídia e os políticos. O que os preocupou foi a morte de um simples homem. Cubano! Como se sabe, a mídia, ou, ao menos, a grande mídia – dos furos de reportagem (Folha, Estado, Globo) -, prima por textos imparciais, sem adjetivos, focado na exposição dos fatos objetivos. A cobertura do fato é feita com isenção. Não se usam adjetivos. Apenas expõem-se os fatos. Trata-se, sem dúvida, de um serviço necessário à vida social. Mas a SOBRE-EXPOSIÇÃO expressa uma posição editorial. Embora apresentada APENAS como DENÚNCIA, há, na cobertura, um humanismo melado e grudento que esconde uma postura estruturalmente enraizada na mídia afirmativa do status-quo burguês-capitalista. Por trás do mel, o que realmente os atrai no fato não é o fato, mas o TEMA: LIBERDADE DE EXPRESSÃO.

Vejamos: No Brasil,  50 milhões de brasileiros ganham até R$ 270 de renda familiar mensal. Essas pessoas não têm acesso seguro a moradia, comida, educação etc. A polícia do Rio de Janeiro mata, em média, 3 pessoas por dia , a de São Paulo, uma, a da Bahia e do Recife, mais que são Paulo. Os casos de corrupção – roubo do trabalho do povo – beiram a comédia. Mas, de repente, um sentimentalismo irresistível toma os corações dos jornalistas e toda a imprensa e os políticos, sensibilizados com Orlando Zapata Tamayo, o “prisioneiro de consciência”, noticiam o fato com tanta relevância quanto uma chacina em uma favela, novos dados do aquecimento global, a crise econômica na Grécia, ou o caso Isabella.

A questão, sem contextos, ganha um tom IDEALISTA.

Na política, a histeria é ainda maior. Os atores políticos, ora políticos, ora atores, não precisam de muito para representar os papeis que a sociedade demanda deles: homens de caráter e defensores da democracia e do Bem. Sabem que em frente a uma câmera cai bem defender os diretos humanos. A omissão de Lula foi um bom momento para fazer oposição. Neste mundo da representação, um TEMA é mais importante que uma AÇÃO, a ficção é mais importante que a realidade. Os ânimos ficaram, então, exaltados. Vejamos o teatro:

Visita de Lula a Cuba provoca bate-boca na Câmara

O presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP), decidiu suspender as votações depois do bate-boca entre o vice-líder do DEM, deputado José Carlos Aleluia (BA), que chamou Fidel Castro (ex-presidente de Cuba) e seu irmão Raul Castro (presidente de Cuba) de assassinos, e deputados do PT e do PC do B, que saíram em defesa de Lula.

Temer fez questão de ressaltar que a posição oficial da Câmara é de repúdio a “toda e qualquer atitude antidemocrática e agressiva a qualquer país do mundo”. “Quem poderia imaginar um presidente operário, o nosso presidente metalúrgico, ir a Cuba para comemorar a morte de um dissidente do regime de Fidel. Isso é inaceitável. Tirar foto dando risada, ao lado de assassinos, ao lado de bandidos, em Cuba”, disse o vice-líder do DEM Aleluia.”- Agência Estado 25/02

O real problema em Cuba não diretamente é o desrespeito aos direitos humanos. O iceberg cubano resume-se objetivamente à  a ditadura semisecular político-econômica de Fidel Castro e agregados. Assim como nos países capitalistas, a hegemonia do modo de dominação é tão enraizada aos pormenores da vida cotidiana que já não se almeja um outro futuro. Assim como aqui o modelo individualista-burguês-consumista adentra desde a opção de por uma faculdade de administração de empresas até a escolha de uma pasta de dentes, lá, Fidel é, pelo que fez há 50 anos e pela coerção que estabeleceu desde então, o ÚNICO CAMINHO capaz de ser apreendido pelo imaginação daquele povo. Lógico que a história SEMPRE tem saltos possíveis, mas trata-se da hegemonia do modo de dominação.

Velada, a cobertura da mídia faz do fato não um evento vinculado à transformação da vida política daquele povo – como queria o próprio Tamayo – mas um exemplo do TEMA burguês LIBERDADE DE EXPRESSÃO a partir do qual se opta por ser a favor ou contra, como se bastasse escolher o botão “liberdade”ou “não-liberdade”. O desvelamento deste modo de dominação hegemônico, tanto lá, como aqui, é, antecipo, o objeivo destes textos. Novos virão.

Kafka em processo: cenas e fragmentos de leitura

Gre Gananian

“Kafka tem grandes olhos cinzentos sob espessas sobrancelhas negras. Sua tez é morena e seus traços extremamente móveis. Kafka fala com seu rosto” 1

O escritório do escritor

No fundo escuro e esquecido de um escritório de seguros, um fiapo de sombraluz se dobrou até encontrar o recôncavo do um fiapo de ser. Sob a vista de todos, mas ao alcance de ninguém, aquele esquecido protótipo de vida, metamorfoseava-se em vazio, em oco, em segredo, em palavras, em vida. Sob a vista de todos Franz Kafka subvertia a segura engrenagem do trabalho projetando para si a todo instante um escudo/espada anamorfico por excelência: o casulo informe da linguagem: “o caminho é mais difícil da cabeça a caneta do que da cabeça a língua”.

O aprendiz

Por acasos da vida, em março de 1920 o jovem escritor Gustav Janouch (1903 – 1968) resolveu enfrentar o caos que ultrapassava em todas as direções aquele escritório escuro até ir de encontro ao mundo de caosmos2 que Kafka habitava. Janouch por forças dos buracos negros da vida foi abduzido para o canto estranho e sibilino que ressoava da fala de Kafka. “Sou o porteiro do tribunal, mas não conheço os juízes. Sem dúvida sou um porteirinho auxiliar. Não tenho nada de definitivo. – Kafka começou a rir. Eu o imitei, embora não tivesse entendido.”

O livro, a voz

O belo e estranho livro/relato escrito por Janouch, “Conversas com Kafka”, perpassa a todo instante a perplexidade, o assombro e as dúvidas exercidas em razão do fortuito e forçoso3 encontro entre um jovem escritor e a metafigura de Franz Kafka; a força do livro resiste por ele lançar no espaciotempo sincrónico as estranhas entranhas entonadas pela tesa e esgarçada voz de Kafka. Este pequeno livro perturba nossas cabeças, pelo fato de trazer em ato, as curvas da diagonal da fala. Poema sinfónico, cantofalado, melodiadetimbres e politonalismo.

Kafka transforma a fácil língua do dia – dia em facas – estilo de quem conhece a “dificuldade da cabeça a caneta” – criando a todo momento projectils de scripts de contos
impossíveis. Ser faquir na vida cotidiana – onde todos passam batidos e surdos – metamorfoseando o cotidiano em vida/criação.

Sua voz, canta no mesmo tom daquele canto de pedra lançado por João Cabral de Melo Neto:
“ E que a frase se arme do perfurante/ que têm no Pajéu as facas – de – ponta: / faca sem dois gumes e contudo ambígua, / por não se ver onde nela não é ponta.”4

uma cena

Num certo momento do livro, Kafka percebe ao encontrar-se com Janouch, que o jovem estava com alguma espécie de problema: “O que lhe aconteceu? Tem o rosto lívido”. Assim, Janouch lhe conta que, no caminho do encontro, ele havia sofrido uma espécie de hiperexcitabilidade do nervo facial, que lhe causou uma violenta dor levando-o a se contorcer em plena rua, fazendo com que uma velha senhora pensasse que o jovem estivesse bêbado: “Olhe aquele ali. Não passa de um fedelho e já está embriagado como um velho bêbado. Que porco! Prefiro nem pensar no futuro que o espera”. Depois de contar o que havia ocorrido, Janouch acrescentou: “Eu deveria ter pegado aquela mulher de jeito e sem moderar minhas palavras! Em vez disso, fiquei mudo. Sou um molenga!”. Após todo este relato a figura de Kafka surpreende pela incrível resposta que ele da a Gustav:
“Não fale assim. Você não sabe que energia reside no silêncio, A agressividade não passa de poeira nos olhos, é uma manobra que habitualmente se destina a camuflar, aos olhos do mundo e dos seus próprios olhos, a fraqueza daquele que a ela recorre. A verdadeira prova de energia e constância esta em se submeter a ela. Só o fraco perde a paciência e torna – se grosseiro. Assim fazendo, perde geralmente toda dignidade humana.”

nossa música

“todo conto é feito de sangue, pense nos contos africanos selecionado por Frobenious5”, a margem da margem, Kafka canta resquícios de uma música esquecida, música de quem é escoria, entonada pela minoria de massa ou como diria Godard, a voz de Kafka sopra o que sobrou da dignidade humana, seu digno silencio canta: Nossa música

músikafka de welles

lambidas na utopia

diego salsa

daí que é inevitável abrir a caixa de signos à esquina do grande labirinto dos destinos selados das horas marcadas dos portões fechados dos fins melancólicos dos dentes brancos das camisas brancas das mensagens diárias já que estamos no sul e a única certeza é expropriar tudo o que resta de rabugice precoce e colocar os óculos escuros para não ver as explosões nucleares e experimentar o mundo é o único valor universal e um risco e um riso terrível já que estamos na esquina da lucidez do rigor e do desbunde da linha e da ruptura do traçado e da superfície do oriente e do ocidente da ignorância e da sofisticação da pobreza e da riqueza da fome e do conforto da quantidade e da qualidade do gosto e do oposto e aspiramos o ar nessa esquina e sabendo que as cidades são muito mais belas pela eletricidade ficamos felizes em desconhecer o que há de mais importante na cultura no agoraagora pois na caixa de signos que probjetamos no longo eterno reviver da terra zzzzzzzz no kaosmos zzzzzzzz tem uma outra caixa xxxxxxxzzzzzzz
sem lugar no espaço e no tempo no vão dos dezmilidez anos à frente e atrás acima e abaixo zzzzzzz mas no vão zzzzzzz no vão xxxxxxx no ir do rir no arfar do ar o vão nem marginal nem cidadão e assim concebidos e assim nascidos e assim amamentados e assim expropriados e assim desierarquizados e assim inexplorados e assim violados e por isso mesmo mais lindos entramos no esquema na cópula com o mundo na cóplula com os signos e probjetamos estruturas contra tudo o que há de opressivo e operamos os modos e módulos de maneira indivisível para que o ouvido olhe para que o olho ouça para que a língua toque para que o sexo fale e por isso não tememos o esquema a transa irreversível mas anversível porque o aberto continua aí e aqui e a pulsação e as fibras e as giras e queremos transar esse barato e escarrar as travas e assumir nossa preguiça nessa dança gozoza chamada realidade nus de hipocrisia continuaremos torcendo pelas moças bonitas já que aqui ali e acolá toda explicação é uma mentira
e se dar e se dar e se dar e se dar e se dar e se dar e se dar e

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