Caso Isabella, sociedade em delírio

Bruno Rico

O assunto da semana é: caso Isabella

“Deus fez o mar, as águas, as crianças, o amor.
O homem criou a favela, o crack, a trairagem, as arma, as bebida, as puta.
Eu ? Eu tenho uma bíblia veia, uma pistola automática e um sentimento de revolta.
Eu tô tentando sobreviver no inferno”
“Genesis”, do álbum “Sobrevivendo no inferno”, dos Racionais Mc’s

Neste sábado (27/03), à 1h da madrugada, ouvia-se no rádio uma repórter da CBN gritando no microfone para ser ouvida em meio à bagunça em frente ao Fórum de Santana, na zona norte de São Paulo, para confirmar o que o Brasil inteiro aguardou por dois anos: o casal Nardoni fora condenado. 31 anos (ele) e 26 anos (ela). O caso Isabella finalmente ganha um fim.

Horas antes, na frente do fórum, um pastor gritava defendendo o perdão do casal com uma bíblia na mão. Foi agredido. A mídia cobrou e o governo disse que ia aumentar o policiamento na área. Cerca de 50 policiais na rua. No mesmo dia, outras duas pessoas foram agredidas. O tenente coronel Ricardo de Souza orientou que o estudante Igor Silva, que defendeu o casal, fosse embora, pois “não tem condições de garantir a segurança dele”. Uma senhora, aparentando 50 anos, deu um soco no rosto de um homem que disse que não havia provas conra o casal. Lá dentro, o promotor fazia sua denúncia gesticulando as mãos embevecido pelo delírio, numa típica cena de filme de tribunal americano. “Depois de jogar a criança pela janela, a terceira pessoa ainda colocou a frauda para lavar”, ironizou. A defesa se irritou e reafirmou que não havia provas. Em seu pronunciamento, o pai Alexandre Nardoni chorava “lágrimas falsas” como disse alguém por ali. A mãe real não quis comparecer. A avó materna vestia uma camiseta com a foto sorridente de Isabella. Os relatos e fotos multiplicaram-se nas capas dos jornais, revistas e portais. “Siga aqui em tempo real o caso Isabella”. E as pesssoas seguiram. E quando, finalmente, a condenação foi confirmada, o povo comemorou como festa, aplaudiu o promotor, correu atrás do carro dos condenados, tocaram no stereo o “Tema da Vitória”, conhecida como a música das vitórias de Ayrton Senna, e, dois anos passados, o Brasil acalmou os ânimos certo de que desta vez, ao menos, fez-se justiça. Que Isabella durma em paz.

Agência Estado
Pastor agredido em  frente ao Fórum de Santana
Pastor em frente ao Fórum de Santana

O fenômeno midiático “caso Isabella”, por mais delirante que pareça, é uma constante nos nossos dias*. Suzane Von Richthofen, Eloá, Daniela Perez e todos os crimes móbidos noticiados diariamente nos cadernos “cidades” dos jornais atraem os olhos como mulher pelada. Hoje, dá para se ter a exata noção de quanta audiênca cada noticia gera em um portal de internet, através de seus cliques por minuto. Uma notícia sobre alagamentos na zona leste de São Paulo dá cerca de 50 cliques. Outra com um furo de reportagem sobre o mensalão do DEM, outros 50. Uma chamada para dicas de sexo anal dá 1000 cliques. O caso Isabella, sem fatos novos, apenas com um “Siga aqui o caso”, dá os mesmos 1000 cliques por minuto. Cada vírgula nova sobre o caso foi devorada como carniça pra cachorros.

Tudo soa como cinema, como mimesis da vida. Na verdade, não exatamente da vida. Mas de uma versão do que PODERIA ser a vida. Sua versão extrema. A condição violenta da vida nas cidades + a delirante produção de notícia colocam a sociedade em estado de catarse. O assassinato de Isabella é um fato privado. Mas o CASO ISABELLA é um fato social. Trata-se de um processo de alienação do fato do processo. Um fetiche produzido em conjunto pela mídia e pela sociedade. Supereróis invertidos degustados por voyeurs. Um delírio conjunto. Expressão da condição estrutural de catarse dos centros urbanos, das periferias, das prisões, da violência, do caos.

A sociedade projetar seus desejos sobre algo público é, no mínimo, comum, senão urgente. O inverso disso é o europeu blasé com cara de casado pegando o metro segunda-feira de manhâ. Deus nos livre. Heróis são heróis. Mortais são mortais. “E ninguém quer ser coadjuvante de ninguém,” parafraseando de novo os Racionais. Sem as paixões populares, a história não anda. Mas aqui não trata-se de heróis. O foco social têm se desviado para seus inversos vazios. Se as edições do BBB têm quase 100 milhões de votos para decidir qual bombado playboy vai continuar na casa, estamos mal. Se o Luciano Huck tem audiência recorde quando tortura um desempregado do sertão para pargar-lhe uma reforma na sua casa em rede nacional num sábado a tarde, estamos mal. Se uma enchente dura dois meses no jardim Pantanal na zona Leste da capital de São Paulo e nada ou quase nada se fala, algo anda por vias tortas. O mito dos heróis não foi superado, mas esvaziado.

AE
Homem protesta na porta do Fórum

O caso Isabella não movimentou tantos corações pela sua bizarrice, mas pela sua proximidade com a vida. Quantas tragédias privadas o caos urbano não estaria alimentando diariamente? Quantos são os sobreviventes? Em frente ao Fórum de Santana, dezenas de pessoas acamparam durante uma semana para tentar ocupar uma das 57 vagas destinadas a interessados em acompanhar o julgamento. “A cabelereira Rosana Aparecida Rodrigues, de 31 anos, fechou o salão e desmarcou as clientes desta quarta-feira. “Nós, que somos mães, queremos apoiar a Ana Carolina de Oliveira”. Da cidade de Tramandaí, no interior do Rio Grande do Sul, veio o engenheiro Carlos Torres, de 57 anos. Entre passagens de avião e hospedagem em hotel, calcula ter gasto cerca de R$ 1 mil. “Desde o primeiro dia acompanho o caso e participo de discussões e comunidades no Orkut. Acho que o fato de ter uma filha pequena chamada Isabella contribuiu para me comover mais”, completou” (reportagem de Lecticia Maggi). Se as câmeras se aprofundassem nas estórias das pessoas que vieram do RS, de MG, da BA, do interior de SP etc para o julgamento, se voltassem a atenção para as pessoas que passaram cinco dias dormindo no chão, que brigaram com o pastor, com o estudante, provavelmente descobririam estórias de vida que sugerem finais trágicos, mas que ou foram superadas pela nobreza franciscano-religiosa de suas almas ou que realmente aconteceram, mas que não chegaram aos cadernos “cidades” da grande mídia. Todos eles foram profundamente tocados não apenas pelo mórbido crime, mas pelo fetiche desencadeado. Suas vidas foram projetadas para a cena do crime: um quarto com manchas de sangue reveladas postumamente pela perícia.

O fetiche delirante é devorado pelo povo e viceversa.

-       Perdão, pastor. Perdão.

* Em 2002, a jovem Suzane Von Richthofen de 19 anos tramou com o namorado, Daniel Cravinhos, o assassinato dos pais, o engenheiro Manfred e a psiquiatra Marísia. O casal foi encontrado morto em seu quarto com golpes de barras de ferro. Suzane foi condenada à pena de 39 anos e 6 meses de reclusão. Hoje, com 26 anos, Suzane frequenta cultos evangélicos na Penitenciária de Tremembé, São Paulo, onde está presa. Em 13 de outubro de 2008, o ex-namorado Lindemberg invadiu o apartamento de Eloá Pimentel. Ela foi feita refém com a amiga Nayara, de 15 anos, e dois amigos. A Polícia Militar invadiu o local, mas Nayara foi baleada no rosto e Eloá, na cabeça e na perna. Lindemberg foi preso. A perícia constatou que saíram do revólver que ele usava os tiros que acertaram as reféns. Pelo menos 12 mil pessoas acompanharam o enterro da jovem em Santo André, na Grande São Paulo. Em 29 de dezembro de 1992, a atriz e bailarina Daniela Perez foi assassinada aos 22 anos com 18 golpes de tesoura, no Rio de Janeiro pelo também ator Guilherme de Pádua, com a ajuda da mulher dele, Paula Thomaz. Na época, Daniella vivia a personagem Yasmin na novela “De Corpo e Alma”, escrita por sua mãe, Glória Perez. Guilherme vivia Bira, apaixonado por Yasmin. Antes de confessar o crime, Guilherme procurou, ainda no funeral, Glória Perez e o ator Raul Gazolla, marido de Daniella, para prestar solidariedade.
PS: Informações sobre o caso Isabella retiradas de reportagens de Lecticia Maggi, Matheus Pichonelli e Ricardo Galhardo, para o iG.

5 Respostas para “Caso Isabella, sociedade em delírio”


  1. 1 Mari março 28, 2010 às 3:39 pm

    Brunão, o texto tá incrível. Sério mesmo!

    Louco é pararmos para pensar no vc falou, o BBB bate recordes de votos!, as pessoas param de viver suas vidas p/ permanecerem na frente do fórum para ver com os próprios olhos a justiça acontecer. Todos seguram com as próprias mãos pedras p/ atirar no mais próximo, pena que eles só sabem julgar a vida dos outros, mas a política, a própria vida deles, não.

    Louco isso.

    Convoco urgente uma cerveja p/ trocarmos umas ideias.
    um beijo
    Mari

  2. 2 Diana março 29, 2010 às 8:09 pm

    Muito bom o texto, Bruno Rico. Agora eu me pergunto: será que as notícias sobre o caso Isabella nos bombardeiam a ponto de não termos outra opção senão ler e nos informar a respeito, ou o nosso anseios de devorar esse fato, faz com que a mídia não pare de produzir tais notícias??

    • 3 caixadesigno março 30, 2010 às 2:20 pm

      Tostines, Di. Se você fizer essa pergunta em uma redação de jornal, é claro que vão justificar a superprodução de informação sobre o caso pela “demanda” do público. Pela mesma lógica, o Big Brother tem mais importância que a venda de urânio do Brasil para o Irã. Ou a Paris hilton do que dados de alfabetização no Brasil. Ou flagras de famosas que a greve de professores. Não sou contra nada disso. Mas o fato é que tá todo mundo pouco se f… com tudo e quer mais é ficar babando olhando bundas. Aí é demais. Nessa sequência, vamos mal. Na mimnha opinião, ou se toma a coisa editorialmente mesmo, ou se toma a coisa editorialmente mesmo. bjo. valeu o comentário. apareça.

  3. 4 Marcelo Lima abril 5, 2010 às 2:16 pm

    Fala Brunão.

    Bem vindos ao país da piada pronta, parte 3.456.
    Lembro bem de uma reportagem que fizeram sobre o caso Isabella logo que o assassinato ocorreu, na frente da delegacia onde estava o casal. Os manifestantes vindos de várias partes desse enorme país, em dias de semana e horário comercial, segurando cruzes, faixas, fotos da Isabella etc. Ninguém, ninguém ali era próximo dela.
    O repórter perguntavam “de onde você vem?”, e as respostas eram inúmeras. Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Sul etc. Pessoas de idade aproximada de 35 anos, mais, e menos.
    Agora, pergunto eu: o que essas pessoas estavam fazendo ali? Querendo justiça ou querendo aparecer na “Grobo”? Os repórteres perguntavam e as respostas eram enroladas.
    E outra pergunta: na boa, você não tem mais o que fazer? Vive do “bolsa família”?
    Não estou querendo minimar a atrocidade que foi o assassinato, mas, na boa, não precisa virar palhaçada, como tudo ou quase tudo nesse país vira.

    • 5 caixadesigno abril 5, 2010 às 8:12 pm

      Porra Marcelo. Fantástico aparecer aqui. Minha estupefação com a coisa é essa mesma. Que que esse opovo todo volta os olhos pra um casinho – mesmo que absurdo – PRIVADO e ESPECÍFICO. Algo tem aí! Pensar e escrever sobre isso não é, no entanto, mera revolta. O caso Isabella, a TV, o BBB, o futebol, o bolsa-família, tudo isso tem mais a dizer desse mundão aqui que qualquer parágrafo de um sociólogo.

      Espero não virar um deles!

      Abss.


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