Quem pinta o sete, deita o oito

Xiko França

Será possível imaginar em que pé anda a possibilidade de o ser humano compreender o infinito?

Se pensarmos na imensidão do espaço, a Terra torna-se tão insignificante que poderia ser resumida a algo muito menor que um grão de areia de uma praia imensa. Afinal de contas, existem mais galáxias no universo do que estrelas dentro da galáxia de Via Láctea. Além disso, quase toda estrela vem acompanhada de um sistema planetário, muitos deles semelhantes ao nosso sistema solar. Pois bem, não há como não reconhecer a pequenez do nosso planetinha tão judiado. No entanto, a coisa muda quando tomamos como referência o nosso próprio corpo, nossas medidas, nossa estatura. Aí sim a Terra se agiganta consideravelmente. Para uma formiga então, nem se fala! Com certeza, ela desconhece a curvatura do globo.

Mas e se fôssemos mais a fundo, na pequenez das coisas e na pequenez das partes das coisas, assim por diante, caminhando sempre em direção ao ponto do ponto? Ao nos depararmos com as micropartículas, como essas comparações ficam? Há uma quebra, uma inversão. A Terra volta a ficar minúscula. Dá-se uma cambalhota e o universo quântico nos joga novamente de cara aos mistérios do macrocosmo. Sobre esse ponto de contato é que Einstein se debruçou durante grande parte da sua vida, na tentativa de chegar a uma teoria total da física, a chamada teoria do campo unificado, que conciliasse a relatividade geral com o comportamento da matéria em escalas atômicas e subatômicas. O problema permaneceu insolúvel até surgir a Teoria das Cordas, ou a Teoria M, para propor algo próximo de uma “teoria de tudo”.

Mesmo assim, o que seria esse “tudo”? Ele está fora ou dentro do infinito? Segundo os matemáticos intuicionistas, sobretudo seu expoente, o holandês Luitzen Brouwer, nós seres humanos, por sermos seres finitos, somos incapazes de compreender o infinito. A própria lógica tradicional, uma vez feita de construções mentais, não poderia ser mais do que um conjunto de construções finitárias. Mas Kurt Godel, por sua vez, revolucionou a matemática dizendo que as verdades matemáticas podem existir independentemente da dedutibilidade. Ou seja, existe uma incompletude que desestabiliza qualquer asserção rasa de consistência matemática.

Teoria da incompletude, até que ponto isso também não nos lança a idéia de infinito, aquilo que existe e que buscamos encontrar sempre com a impressão de que algo nos escapará?

Pensar esse tipo de coisa é sempre e essencialmente um ato metalingüístico. Normalmente se diz que a pessoa que aponta para um ponto do céu, querendo apontar a direção do infinito, quando chega mentalmente mais longe, tende a retornar ao próprio ponto em que está, de mãos erguidas, como que mirando a si próprio sem saber. Algo parecido com a idéia do eterno retorno, misturado com o lema sofista de que “o homem é a medida das coisas”. Isso, é verdade, supostamente enclausura as possibilidades de compreensão do infinito para além do condicionamento humano. Mas talvez o x da questão seja que ao olharmos para frente e para o futuro, sempre vemos um espelho. Um espelho que se interpõem para tentar suprir confortavelmente nossas miopias.

Essa espécie de visão-espelho pode também não ser puramente artificial e mera derivação de nossas projeções limítrofes. Se pensamos num espaço infinito, o tempo também deve ser pensado da mesma forma, e assim talvez o infinito deva existir mesmo de tal modo que tudo nele seja sincrônico.

Por mais contraditório que pareça, um outro meio de tentar compreender o infinito seria olhar para trás, para o passado. Há tempos o grande desafio dos cosmólogos tem sido chegar a resultados precisos sobre o Big Bang, o começo de tudo que conhecemos, para poder daí sondar o futuro do Universo, o futuro de sua expansão.

Recentemente, os físicos do Centro Europeu de Física Nuclear (Cern) obtiveram sucesso na incrível experiência de reproduzir as condições físicas de um nanossegundo depois do Big Bang. A idéia foi fazer prótons colidirem a uma velocidade próxima da luz, a tal ponto que a energia gerada desta colisão (cerca de 7 trilhões de elétrons-volt) fosse transformada em matéria. Justamente de acordo a clássica equação E=mc². E assim foi. Agora as pesquisas precisam de tempo para decifrar todas as implicações de seu experimento.

Ainda assim, sempre vem a pergunta: “e antes do Big Bang?”. Neste quesito, a ciência tende a se eximir da responsabilidade de oferecer respostas. É claro, pois antes disso, há incontáveis problemas a se resolverem. Mas é inegável que, cada vez mais, alguns cérebros muito aplicados estão caminhando para uma visão mais ampla e complexa do espaço, da existência e, porque não, do infinito.

O que existia antes do Big Bang é algo que não pode ser respondido, mas o problema é tão instigante que fez nascerem hipóteses interessantes. Segundo o cosmologo russo da Universidade de Stanford Andrei Linde, por exemplo, o Universo é apenas uma ramificação de um “Multiverso” provavelmente infinito. Richard Wolfson, em seu livro sobre Einstein, explica a teoria de Linde: “aquilo que consideramos ser a origem e evolução do Universo a partir do Big Bang é apenas o brotamento e subseqüente expansão de uma nova ramificação de um cosmo preexistente. Essa ramificação é o nosso Universo. Outras ramificações são universos diferentes, cada um dos quais teve seu próprio Big Bang e seu próprio cenário de evolução”.

Uma teoria como essa, apesar de ainda estar muito longe de qualquer comprovação empírica, é impressionante. É o infinito que nos fascina.

A Ciência mesma é infinita, essa é a prova de que os cientistas estão em constante busca pelo infinito. Eis o que disse certa vez o nosso mais ilustre físico, Mário Schenberg: “A História da Ciência é mais fascinante que um romance policial. O mistério do romance policial sempre se esclarece no fim, mas o da Ciência nunca se esclarece”.

Georg Cantor foi o primeiro a considerar conjuntos infinitos na Matemática

6 Respostas para “Quem pinta o sete, deita o oito”


  1. 1 romulex abril 6, 2010 às 8:14 pm

    compreendendo o infinito quietaria quiçá toda curiosidade e com isso toda pulsão e provavelmente todo sentido de manutenção do já compreendido levando a uma busca de nihilista de novos sentidos por se encontrar, Quiçá …

  2. 3 Xiko França abril 7, 2010 às 1:49 pm

    romulo,
    é essa a idéia do texto. Você está entendendo o infinito!
    Justamente porque tal compreensão reside numa busca essencial sem fim. a frase de Mario Schenberg resume tudo.

  3. 4 Ruth abril 13, 2010 às 7:21 pm

    Segundo o Jin Shin Jitsui ( uma técnica de tratamento atráves de pontos e meridianos semelhantes àqueles da acupuntura):-

    ” IT IS AS IT IS, AND, IT IS AS IT”

    Muito semelhante ao que Karl Jung cita:-

    “Quem olha para fora SONHA.
    Quem olha para dentro ACORDA.”

  4. 5 cami agosto 23, 2010 às 4:49 pm

    lendo seu texto, lembrei de um video feito pelo Eames muito interessante que vai muito nesse sentido…

    da uma olhada

    um beijo daqueles a todos da caixa.


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